Resenha: Extinção | Thomas Bernhard


Em termos de enredo, o romance Extinção (Companhia das Letras, 2020; tradução: José Marcos Mariani de Macedo), de Thomas Bernhard, é bem simples: o protagonista-narrador, um professor austríaco de literatura que mora em Roma, recebe um telegrama informando sobre a morte de seus pais e um irmão. A partir disso, em torno disso, toda a narrativa do livro se desenvolverá.

Como os outros protagonistas de Bernhard, este odeia e tem repulsa de sua pátria, do nazismo, do catolicismo e de sua família. E há motivos muito bem explanados para tanto. Ele tenta incutir em Gambetti, seu pupilo, seus ensinamentos, e explica para ele o motivo pelos quais algumas coisas lhe são repulsivas. O simples ato de fotografar ou deixar-se registrar em câmera será alvo de sua crítica. Gambetti toma as vezes de um estudante aplicado, mas de gênio ainda incipiente – uma presa fácil para as ideias e filosofias de um preceptor sábio e amargo. 

A pequena Wolfsegg – provinciana, de ambições pequenas – é um dos alvos do ódio do protagonista. De fato, ele não se perdoa por ter nascido e crescido ali, em meio a pais negligentes e irmãs que zombavam de si. O ponto de atenção da família é o irmão, no qual se depositam expectativas do futuro “Senhor de Wolfsegg”, alguém capaz de substituir o pai em pé de igualdade. Com todas as possibilidades em mente, então, o protagonista se vê forçado a abandonar, ainda que temporariamente, a cidade de Roma (que é luz para ele), tendo de retornar a Wolfsegg para acompanhar os ritos funéreos e tomar outras providências enquanto “homem remanescente” da família, uma vez que o jogo praticamente vira a seu favor, considerando a morte do pai e do herdeiro. 

Se antes era desprezado e motivo de riso, o protagonista torna-se, de repente, responsável pelo nome da família e Senhor de Wolsegg. Suas irmãs, Amalia e Caecilia, vendo a nova atmosfera em torno do irmão, se aproximam dele, em busca de proteção. O patético fabricante de rolhas de garrafas de vinho, cunhado do protagonista, serve apenas como figura cômica, aparvalhada, durante o funeral. 

Trata-se de uma obra magistral, se pensada como a “coroa” da criação de Bernhard. Seu fluxo de pensamento é incessante, denso. Ele não poupa críticas nem mesmo à fotografia ou a grandes escritores alemães como Goethe e Thomas Mann. E é no final que Bernhard demonstra, com força, a sua genialidade, juntando, num funeral, todos os elementos obsessivos em sua literatura: o ódio à Áustria (local do funeral), o ódio aos nazistas (amigos do falecido pai que surgem no cemitério, ostentando suas medalhas e divisas nacional-socialistas), o ódio aos próprios pais e o ódio ao catolicismo (desde os bispos locais até Spadolini). 

Ademais, Spadolini é um dos grandes personagens do livro: é um "ator", como pensa o protagonista. Ele é muito bom em seu disfarce, enaltecendo as qualidades dos mortos e mantendo a aura plástica católica. Na verdade, todos sabem que Spadolini manteve, por mais de 30 anos, relação muito mais que amistosa com a mãe do protagonista, uma das pessoas veladas. 

Spadolini mantém sua aura de cardeal intocável, mas mesmo o protagonista acaba cedendo e participando da "farsa" do funeral com os demais atores odiosos. Assim, ele se vê como uma marionete dentre centenas de outras, ao sabor das palavras, entonações e gestos de mão do cardeal, deixando aflorar sua hipocrisia em meio às demais, dos camponeses, dos oficiais nazistas, dos clérigos locais e das próprias irmãs. Temos, enfim, um imenso teatro de mentiras. 

Recomendamos com muita força o livro Extinção, para quem gosta desse tipo de prosa. Páginas e páginas dominadas por um único parágrafo, mas uma verve impressionante, um fluxo de pensamento aniquilador. 

Que o Brasil tenha um Thomas Bernhard para chamar de seu! Este país carece muito disso!

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